Gestos na liturgia: por que o corpo também reza?

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Gestos na liturgia: por que o corpo também reza?

Gestos que rezam: quando o corpo participa do encontro com Deus

Imagine uma criança durante a Missa observando os adultos ao seu redor. Em determinado momento todos se levantam. Depois, sentam-se. Mais tarde, muitos se ajoelham. Então ela pergunta baixinho aos pais: “Por que a gente faz tudo isso?”. A pergunta parece simples, mas toca um aspecto importante da nossa fé: os gestos na liturgia também fazem parte da maneira como rezamos.

Talvez alguém responda apenas: “Porque é assim na Missa”. Contudo, existe uma resposta muito mais rica. Na celebração litúrgica, não participamos somente com pensamentos, sentimentos ou palavras. Participamos como pessoas inteiras, com inteligência, vontade, voz, silêncio e também com o corpo.

Por isso, ficar de pé não significa apenas mudar de posição. Ajoelhar-se não é simplesmente descansar de outra maneira. Da mesma forma, uma inclinação não deveria ser um movimento vazio. Cada gesto, dentro do contexto da celebração, pode expressar algo daquilo que a Igreja está vivendo diante de Deus.

Quando começamos a compreender isso, a própria maneira de participar da liturgia pode amadurecer.

Neste artigo, você vai entender

  • por que o cristianismo não separa corpo e oração;
  • o que alguns dos principais gestos litúrgicos expressam;
  • por que a Igreja valoriza atitudes corporais comuns na celebração;
  • como evitar gestos automáticos ou exageradamente individualistas;
  • como explicar essas atitudes às crianças e aos jovens;
  • como permitir que o corpo ajude o coração a participar melhor da liturgia.

A liturgia envolve a pessoa inteira

Existe uma tendência bastante comum de imaginar a oração como algo que acontece apenas “por dentro”. Nesse modo de pensar, o que realmente importaria seria somente a intenção interior. O corpo, por sua vez, teria pouca importância.

A tradição litúrgica católica apresenta uma visão mais completa da pessoa humana.

Nós não somos uma alma que simplesmente carrega um corpo. Vivemos, amamos, sofremos, trabalhamos, celebramos e nos relacionamos com Deus como pessoas inteiras. Portanto, nossa corporeidade também participa da vida de fé.

Pense na vida cotidiana. Quando encontramos alguém querido depois de muito tempo, nosso afeto pode aparecer num abraço. Diante de uma pessoa que sofre, às vezes nos aproximamos e permanecemos ao lado dela em silêncio. Quando desejamos demonstrar respeito, nossa postura muda naturalmente.

O corpo expressa aquilo que carregamos interiormente.

Na liturgia, algo semelhante acontece, embora de maneira própria e ordenada pela celebração da Igreja.

Por meio das palavras, proclamamos e respondemos. Pelo canto, unimos nossa voz à assembleia. No silêncio, recolhemo-nos. Além disso, por meio das posturas e dos gestos, expressamos reverência, escuta, adoração, disponibilidade e comunhão.

Desse modo, corpo e interioridade não precisam competir.

Ao contrário, um pode ajudar o outro.

Os gestos na liturgia não são simples movimentos

Por que não permanecer sentado durante toda a Missa, desde que o coração esteja voltado para Deus?

A pergunta ajuda a perceber algo fundamental.

A liturgia não é apenas uma oração privada realizada simultaneamente por muitas pessoas no mesmo lugar. Ela é ação da Igreja. Consequentemente, existe uma dimensão comunitária também em nossas respostas, posturas, silêncios e movimentos.

A Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II, ao falar da participação dos fiéis, menciona aclamações, respostas, salmodia, antífonas, cânticos, ações, gestos e atitudes corporais. Também destaca a importância do silêncio sagrado.

Isso mostra que a participação litúrgica não pode ser reduzida à ideia de “fazer muitas coisas”.

Participar inclui ouvir.

Inclui responder.

Em certos momentos, significa cantar. Em outros, permanecer em silêncio.

Também envolve levantar-se, sentar-se, ajoelhar-se e realizar os gestos previstos para a celebração.

Portanto, os gestos na liturgia possuem uma dimensão pessoal, mas também comunitária. Quando a assembleia assume uma postura comum, manifesta exteriormente que não somos apenas indivíduos rezando lado a lado. Somos membros de um povo reunido para celebrar.

Essa compreensão evita dois extremos.

O primeiro seria tratar o corpo como irrelevante.

O segundo seria concentrar tanta atenção na execução externa dos movimentos que a atitude interior acabasse esquecida.

A liturgia pede unidade entre as duas dimensões.

Gestos na liturgia: por que o corpo também reza?

A Bíblia também mostra uma fé que passa pelo corpo

As Escrituras apresentam diversas situações nas quais a relação com Deus envolve atitudes corporais.

Em Romanos 12,1, São Paulo exorta os cristãos a oferecerem seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. O ensinamento ajuda a perceber que a existência concreta do cristão pertence ao Senhor.

Em outro momento, o Apóstolo recorda aos coríntios que o corpo é templo do Espírito Santo e os convida a glorificar a Deus no próprio corpo, conforme 1 Coríntios 6,19-20.

Essas passagens não são instruções específicas sobre cada postura da Missa. Contudo, mostram uma verdade maior: nossa relação com Deus não acontece à margem da corporeidade.

Outro exemplo aparece em Filipenses 2,10, quando São Paulo fala de todo joelho que se dobra diante do nome de Jesus.

Além disso, a própria vida de Cristo mostra ações corporais ligadas à oração e à relação com o Pai. Os Evangelhos apresentam Jesus rezando, impondo as mãos, partindo o pão, tocando pessoas e realizando gestos concretos.

O cristianismo, portanto, não despreza o corpo.

Isso se torna ainda mais significativo quando recordamos a Encarnação. O Filho de Deus assumiu verdadeiramente a nossa humanidade. Assim, a fé cristã não trata a matéria como se fosse inimiga da vida espiritual.

Na liturgia, essa verdade ganha uma expressão particularmente bela.

Há água.
Encontramos pão e vinho.
Também está presente o óleo.

Existem palavras pronunciadas, mãos que se estendem, pessoas que caminham, joelhos que se dobram e corpos que se levantam.

Deus nos encontra dentro da nossa condição humana.

Ficar de pé: uma postura de atenção e disponibilidade

Em vários momentos da celebração, a assembleia permanece de pé.

Por ser tão habitual, talvez nem percebamos o significado dessa postura. No entanto, estar de pé pode expressar atenção, respeito, prontidão e participação.

Pense, por exemplo, na proclamação do Evangelho durante a Santa Missa.

A assembleia se levanta.

Esse simples movimento já nos ajuda a perceber que algo está acontecendo. O corpo deixa a posição anterior e assume outra atitude. Dessa forma, a própria postura pode favorecer uma escuta mais consciente.

Não significa que Deus esteja menos presente quando estamos sentados. Tampouco devemos criar interpretações particulares para cada segundo da celebração.

Ainda assim, as posturas previstas pela liturgia possuem sentido.

Ficar de pé também recorda uma Igreja viva, reunida e pronta para responder ao Senhor.

Por isso, vale ensinar às crianças que levantar-se na Missa não deveria ser apenas copiar os adultos.

Podemos explicar de maneira simples:

“Agora ficamos de pé porque toda a Igreja está rezando assim neste momento.”

A frase já muda muita coisa.

Em vez de receber apenas uma ordem, a criança começa a descobrir o significado da ação.

Sentar também pode ser uma atitude de oração

À primeira vista, sentar parece ser simplesmente uma posição confortável. Entretanto, dentro da liturgia, essa postura pode estar especialmente ligada à escuta e à atenção.

Durante a Liturgia da Palavra, por exemplo, existem momentos nos quais a assembleia se senta para ouvir.

Isso ensina algo importante para nossa época.

Participar não significa estar constantemente falando ou fazendo alguma ação visível.

Escutar também é participação.

Aliás, aprender a escutar é uma das grandes necessidades da vida cristã.

Quando nos sentamos e prestamos atenção à Palavra proclamada, à homilia e aos demais elementos próprios daquele momento da celebração, nosso corpo pode colaborar com uma disposição interior de acolhimento.

Porém, existe uma diferença entre sentar-se para escutar e simplesmente “desligar-se” da celebração.

Externamente, a postura pode ser idêntica. Interiormente, entretanto, a atitude muda completamente.

Uma pessoa pode estar sentada e profundamente atenta.

Outra pode ocupar o mesmo banco enquanto pensa em dezenas de outras coisas.

Por essa razão, compreender os gestos na liturgia ajuda também a combater o automatismo.

Ao sentar-se, podemos recordar interiormente:

“Agora quero escutar.”

É uma pequena disposição, mas pode favorecer uma participação mais consciente.

Ajoelhar-se: quando o corpo reconhece quem está diante de nós

Entre os gestos corporais da tradição católica, ajoelhar-se possui uma força particular.

O corpo se abaixa.

Nossa altura diminui.

Por alguns instantes, a própria postura nos recorda que não ocupamos o centro de tudo.

Na vida cristã, ajoelhar-se está associado especialmente à adoração, à reverência e à humildade diante de Deus.

Porém, é importante evitar uma compreensão superficial.

Ajoelhar-se não deve ser entendido como gesto de humilhação no sentido de desvalorizar a dignidade humana. Pelo contrário, diante de Deus reconhecemos quem Ele é e, ao mesmo tempo, reconhecemos quem somos: criaturas amadas e dependentes de seu amor.

Na celebração eucarística, essa postura ganha especial significado nos momentos determinados pelas normas litúrgicas.

Dessa forma, o corpo pode ajudar a expressar aquilo que a fé professa.

Nem sempre nossa emoção acompanha o gesto. Talvez estejamos cansados, distraídos ou espiritualmente secos. Ainda assim, a atitude corporal pode nos recordar aquilo que desejamos viver interiormente.

Naturalmente, existem pessoas que, por idade, enfermidade, deficiência, dor ou outra limitação, não conseguem ajoelhar-se.

A fé não deve transformar uma limitação física em motivo de constrangimento.

Deus conhece a realidade de cada pessoa. Portanto, ninguém deveria julgar precipitadamente outro fiel apenas porque ele não assume determinada postura corporal.

A reverência pode continuar presente mesmo quando o corpo possui limites.

Inclinar-se ensina uma linguagem discreta de reverência

Nem todos os gestos na liturgia chamam a atenção.

Alguns são muito discretos.

A inclinação é um bom exemplo.

Justamente por ser pequena, ela pode passar despercebida ou se transformar num movimento executado sem consciência. Contudo, inclinar o corpo ou a cabeça, nos momentos previstos, expressa reverência.

Existe algo pedagogicamente belo nesse gesto.

Não precisamos de movimentos grandiosos para reconhecer a grandeza de Deus.

Às vezes, uma pequena inclinação realizada conscientemente diz muito.

Esse princípio também vale para outras ações litúrgicas.

A liturgia católica, em geral, não depende de gestos teatrais. Sua linguagem corporal é sóbria, comunitária e ligada ao que está sendo celebrado.

Por isso, compreender os gestos não significa inventar movimentos adicionais.

Significa aprender a realizar com maior consciência aquilo que a Igreja propõe.

O sinal da cruz envolve aquilo que cremos e aquilo que somos

Talvez nenhum gesto cristão seja tão conhecido quanto o sinal da cruz.

Muitas crianças aprendem a fazê-lo antes mesmo de compreender seu significado.

Isso é belo, pois mostra como a fé também é transmitida pelos gestos familiares. Ao mesmo tempo, conforme a criança cresce, vale ajudá-la a compreender melhor aquilo que faz.

Ao traçar sobre nós o sinal da cruz e invocar o Pai, o Filho e o Espírito Santo, realizamos um gesto profundamente ligado à identidade cristã.

No entanto, a familiaridade pode gerar pressa.

A mão se movimenta rapidamente e quase não percebemos o que estamos fazendo.

Por isso, uma boa formação litúrgica não precisa transformar o sinal da cruz em algo complicado. Basta recuperar sua dignidade.

Faça-o com serenidade.

Pronuncie conscientemente as palavras.

Perceba que seu próprio corpo está participando da oração.

Dessa maneira, aquilo que aprendemos quando crianças pode amadurecer conosco.

Unidade corporal também expressa unidade da assembleia

Existe outro aspecto que merece atenção: as posturas comuns durante a celebração ajudam a manifestar a unidade da comunidade reunida.

A Instrução Geral do Missal Romano trata dos gestos e posições corporais e destaca seu papel na beleza, na simplicidade e na unidade da celebração.

Isso nos ajuda a entender por que a liturgia não é o lugar ideal para cada pessoa inventar constantemente uma maneira própria de se expressar.

Naturalmente, existe interioridade pessoal.

Cada fiel traz sua história, suas intenções, suas alegrias e suas dores.

Contudo, celebramos juntos.

Quando todos se levantam, aquela postura comum diz algo.

Quando a assembleia se senta para escutar, também existe uma linguagem comunitária.

Do mesmo modo, quando chega o momento do silêncio, ninguém precisa preencher imediatamente aquele espaço com palavras particulares pronunciadas em voz alta.

A unidade litúrgica não apaga a pessoa.

Ao contrário, insere cada pessoa na oração de um povo.

Assim, seguir as orientações litúrgicas não deveria ser visto apenas como obediência a regras externas. Existe também uma pedagogia de comunhão.

Meu corpo não pertence apenas à minha expressão individual naquele momento.

Ele participa de uma assembleia que celebra.

Quando os gestos na liturgia viram movimentos automáticos

É possível frequentar a Missa durante muitos anos e realizar praticamente todos os movimentos no momento certo sem pensar no que significam.

O corpo aprende a sequência.

Levantamos porque todos levantaram.

Sentamos quando os outros sentaram.

Ajoelhamos quando percebemos o movimento ao redor.

Isso não significa necessariamente falta de fé. Muitas vezes, trata-se simplesmente de hábito.

Ainda assim, vale redescobrir o sentido desses movimentos.

O primeiro cuidado é não transformar a liturgia numa coreografia.

Não estamos executando passos para demonstrar que sabemos “fazer tudo certo”.

Ao mesmo tempo, também não convém pensar que, por termos boa intenção, os gestos comuns da Igreja são dispensáveis.

Outro risco aparece quando alguém começa a avaliar excessivamente os outros.

“Fulano não ajoelhou.”

“Aquela pessoa fez diferente.”

“Esta família não sabe se comportar.”

Tal atitude pode nos afastar justamente daquilo que a liturgia deseja formar em nós.

Há normas e orientações que merecem respeito. Porém, não conhecemos necessariamente as limitações físicas, circunstâncias ou formação de quem está ao nosso lado.

Portanto, uma boa formação litúrgica deve produzir reverência e comunhão, não vigilância sobre os demais.

Ensine seus filhos a perguntar: “O que este gesto significa?”

Uma família pode fazer muito pela formação litúrgica das crianças sem transformar o domingo numa aula.

O primeiro passo é acolher as perguntas.

“Por que ficamos de pé?”

“O que significa ajoelhar?”

“Qual é o sentido desse gesto do padre?”

“E o sinal da cruz, o que ele expressa?”

Em vez de responder apenas “porque tem que fazer”, tente oferecer uma explicação curta e verdadeira.

Gestos na liturgia: por que o corpo também reza?

Antes da Missa

Escolha apenas um gesto para conversar.

Por exemplo:

“Hoje, quando chegar o Evangelho, perceba que vamos ficar de pé. Depois conversamos sobre isso.”

Essa pequena preparação desperta atenção.

Durante a celebração

Evite explicar tudo o tempo inteiro.

A própria criança precisa aprender que existe hora de falar e hora de silenciar.

Quando necessário, uma orientação discreta basta.

Depois da Missa

Retome a pergunta.

“Você percebeu quando todos se levantaram?”

“Como foi ficar em silêncio?”

“Você reparou quando nos ajoelhamos?”

A conversa não precisa durar meia hora.

Poucos minutos já podem ajudar os filhos a perceber que a Missa possui uma linguagem.

Dessa forma, pouco a pouco, eles deixam de enxergar os movimentos como ordens aleatórias e começam a compreender que o corpo participa da oração da Igreja.

Um pequeno exercício para participar melhor da próxima Missa

Você não precisa memorizar de uma vez o significado de cada postura ou estudar um manual inteiro antes do próximo domingo.

Comece pequeno.

Na próxima Missa, escolha três momentos e procure vivê-los com mais consciência.

Ao ficar de pé, recorde interiormente sua disponibilidade para escutar e responder ao Senhor.

Quando estiver sentado para ouvir, resista à distração e procure acolher verdadeiramente a Palavra proclamada.

Ao ajoelhar-se, se puder fazê-lo, permita que a postura ajude você a reconhecer com humildade e reverência a grandeza de Deus.

Depois, observe também o sinal da cruz.

Você o faz com consciência ou apenas rapidamente?

Por fim, preste atenção ao silêncio.

Embora não pareça um “gesto”, o silêncio envolve todo o corpo. Paramos de falar, diminuímos os movimentos desnecessários e criamos espaço para uma atenção mais recolhida.

Esse exercício simples pode ser repetido em família.

Não como competição para descobrir quem se comportou melhor, mas como formação.

A pergunta principal pode ser:

“Qual gesto da Missa me ajudou a rezar hoje?”

O corpo participa, mas o gesto precisa encontrar o coração

Existe uma verdade que não podemos esquecer.

O gesto exterior, sozinho, não garante uma vida interior profunda.

Podemos ajoelhar o corpo enquanto a mente permanece completamente distante.

Da mesma forma, podemos fazer uma inclinação perfeita sem cultivar verdadeira reverência.

Por outro lado, seria um erro concluir que, por isso, os gestos não importam.

Interioridade e corporeidade podem educar-se mutuamente.

Às vezes, o coração conduz o corpo.

Em outras ocasiões, o corpo ajuda a recordar ao coração aquilo que estamos celebrando.

Imagine alguém chegando à igreja depois de uma semana difícil. Talvez essa pessoa esteja cansada e com pouca disposição interior. Ainda assim, faz o sinal da cruz, entra em silêncio, participa das respostas, levanta-se com a comunidade e se ajoelha quando previsto.

Esses movimentos não substituem a fé.

Contudo, podem ajudar a pessoa a sair gradualmente da dispersão e recordar: “Estou aqui diante de Deus, celebrando com a Igreja.”

Esse é um dos valores da linguagem litúrgica.

Ela nos educa.

A liturgia também forma nossa maneira de viver fora da igreja

Talvez o aspecto mais bonito dos gestos na liturgia apareça quando aquilo que celebramos começa a influenciar nossa vida cotidiana.

De que adiantaria inclinar-se reverentemente diante de Deus e tratar as pessoas com arrogância depois da Missa?

Que sentido teria ajoelhar-se em adoração e, ao sair da igreja, recusar-se a reconhecer que precisamos de Deus?

Como poderíamos escutar atentamente as Escrituras durante a celebração e nunca permitir que a Palavra questione nossas escolhas?

A liturgia não termina simplesmente quando mudamos de postura ou atravessamos a porta da igreja.

Ela nos forma para a vida cristã.

O corpo que se levanta diante do Evangelho pertence à mesma pessoa chamada a colocar a Palavra em prática.

Os joelhos que se dobram diante de Deus pertencem ao cristão convidado a viver com humildade.

A boca que responde “Amém” pertence à pessoa chamada a testemunhar sua fé também durante a semana.

As mãos que recebem precisam aprender igualmente a servir.

Nesse sentido, os gestos litúrgicos não são apenas movimentos realizados dentro de um templo.

Eles podem educar nossa maneira de estar diante de Deus e, consequentemente, nossa maneira de estar diante dos irmãos.

Quando a família começa a rezar também com o corpo

Uma formação litúrgica simples pode produzir frutos muito concretos.

Primeiramente, surge maior atenção.

Em vez de perguntar apenas “o que acontece agora?”, começamos a perceber por que assumimos determinada postura.

Além disso, cresce a reverência. Não necessariamente uma reverência rígida ou tensa, mas uma consciência serena de que estamos participando de algo santo.

Outro fruto é a unidade.

A pessoa deixa de enxergar a Missa apenas como sua devoção individual e percebe mais claramente a assembleia.

Também pode crescer o respeito pelo próprio corpo.

Se ele participa da oração, então não é um obstáculo à relação com Deus. Nossa corporeidade faz parte de quem somos e também pode ser oferecida ao Senhor.

Por fim, a família ganha uma nova possibilidade de catequese.

Os pais não precisam conhecer todas as respostas imediatamente. Podem estudar aos poucos, perguntar a pessoas bem formadas, consultar documentos da Igreja e aprender com os filhos.

Assim, uma pergunta aparentemente simples, “por que precisamos ficar de pé?”, pode abrir uma conversa muito maior sobre liturgia, Eucaristia, reverência e participação.

Que nossos gestos expressem aquilo que desejamos viver

Na próxima vez que você entrar na igreja para a Santa Missa, talvez nada pareça diferente.

Os bancos estarão ali.

A assembleia chegará aos poucos.

Em determinado momento, você ficará de pé. Depois, sentará. Se suas condições permitirem, também se ajoelhará nos momentos previstos. Fará o sinal da cruz, responderá às orações e permanecerá em silêncio.

Exteriormente, pode parecer a mesma sequência de sempre.

Contudo, algo pode começar a mudar interiormente.

Agora você sabe que os gestos na liturgia não existem apenas para organizar as pessoas dentro da igreja. Eles pertencem à linguagem da celebração e ajudam a pessoa inteira a participar da oração da Igreja.

Celebrar cada gesto com mais consciência

Por isso, não precisamos fazer movimentos exagerados nem procurar demonstrações extraordinárias de devoção.

Precisamos aprender a celebrar com consciência.

Quando ficarmos de pé, que nossa atenção também se levante.

Ao nos sentarmos para ouvir, que nossa mente esteja verdadeiramente disponível.

De joelhos, reconheçamos também interiormente a grandeza de Deus.

E, ao fazermos o sinal da cruz, que esse gesto não seja apenas um movimento apressado.

E quando permanecermos em silêncio, que nosso silêncio tenha espaço para Deus.

A liturgia nos ensina algo muito humano e, ao mesmo tempo, profundamente cristão: diante do Senhor, não rezamos apenas com uma parte de nós.

Nós nos apresentamos inteiros.

Participamos com a voz e também com o silêncio.
Nossa inteligência e nossos afetos igualmente entram nessa experiência.
Até nossas limitações e nossa disponibilidade fazem parte desse encontro.
Alma e corpo participam juntos daquilo que celebramos.

Assim, pouco a pouco, aquilo que celebramos pode formar não apenas nossos gestos dentro da igreja, mas também nossa maneira de viver quando voltamos para casa.

Na próxima Missa, escolha um gesto e procure realizá-lo com mais consciência. Depois, converse sobre ele com sua família.

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